É bem interessante a reportagem que saiu no caderno “TV e Lazer” do Estadão desse domingo. Entender outras realidades e experiências podem nos colocar diante de novas perspectivas. Acho que a discussão não pode ser encarada de forma pontual e deve cruzar necessariamente duas questões:
FINANCIAMENTO
É impossível pensar em trazer o modelo de financiamento via imposto para nossa realidade. Isso é bastante claro e a contundente negativa à proposta do então governador Mário Covas deixou isso ainda mais evidente. É interessante como esse tipo de imposto é cobrado na Inglaterra ou França, atrelado à aquisição de um aparelho de televisão. Do mesmo modo, pensar em modelos que priorizem o capital estatal é, na verdade, escamotear a discussão, pois o dinheiro está vindo da mesma fonte – o contribuinte – com a vantagem de dar mais liberdade e ingerência à aplicação dos recursos. Não é nada barato a instalação de um parque de produção e transmissão de conteúdo, ainda mais para o Brasil todo, como pretende o governo federal. Talvez por isso a questão seja tão assombrosa. É prioridade a injeção de 250 milhões de reais diretamente dos cofres públicos? Ou existem alternativas que sejam mais condizentes com a realidade econômica do país? Com certeza outras alternativas de financiamento implicam obrigatoriamente em novos modelos de gestão e concepção de conteúdo. E isso não está de maneira alguma dentro dos limites enquadrados pela burocracia brasileira.
CONTEÚDO
Com certeza a frase do presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, destacada na reportagem do Estadão é emblemática nesse sentido. Se a TV Pública não deve brigar pela audiência da TV Comercial, então não devemos ter TV Pública no Brasil. Uma produção audiovisual é realizada para ser vista. Pensar que certos conteúdos são exclusivos de um segmento de televisão (e mais, que a linguagem também deve ser exclusiva) é de um retrocesso sem tamanho. De um pedantismo autoritário. O caso da TVN chilena é bem oposto a essa situação. Líder de audiência, talvez conte com um conteúdo excessivamente apelativo, mas a variedade (inclusive com a presença de documentários na programação) se faz presente. Porém, via de regra, a TV Pública quase nunca vai disputar audiência com as comerciais mesmo. Mesmo assim, esse deve ser seu direcionamento. Se a CBC canadense não consegue disputar o share com as grandes, ela parece construir uma programação diferenciada e atual, além da forte tradição de fomento à produção. Mas a mentalidade provinciana aqui no Brasil (e não só no governo diga-se de passagem) é mais forte que qualquer tentativa de se repensar conteúdo e relação com o telespectador. Dá até para imaginar os programas de “cultura popular” que serão realizados. Isso lembra um pouco daquela história “o filme não deu bilheteria porque era uma filme difícil”.
Outro fato é que, no geral, a maioria dessas emissoras públicas estrangeiras têm uma estrutura absurdamente enxuta comparada aos monstrengos burocráticos brasileiros. E tudo leva a crer que a nova TV Pública será mais uma dessas. Só que muito maior. Talvez mais um espaço de loteamento político, já que não está desenhada uma estrutura independente (se bem que até as “independentes” com a TV Cultura sofrem com a ingerência estatal). E com certeza mais um espaço em que o produtor independente encontrará uma montanha de editais para a realização de documentários que terão audiência pífia. As estruturas já existentes de TV Pública e/ou Educativa continuarão sucateadas, isso é certo. Não só por falta de verba, mas principalmente pela falta de reestruturação interna e modernização conceitual. Claro que existem pessoas dentro delas que querem mudar isso, mas o peso da burocracia normalmente fala mais alto. A entrada de capital privado por meio de comerciais só atrasa ainda mais a discussão. Na verdade, o que importa é pensar como esse capital vai ser aplicado e o que a TV Pública e/ou Educativa pode oferecer como diferencial competitivo dentro de diferentes ninchos no mercado televisivo. É batalhar pela audiência, brigar pelo Ibope, mas não desgrudar o olho daquilo que nenhuma TV Comercial aberta tem compromisso: a qualidade.
Enfim, o Governo Federal, como em outros setores, amplia seu poder de barganha com mercado privado, que fornecerá conteúdo à nova TV Púbica (imaginando-se que ela vá existir, como tudo leva a crer). Poderá ser um belo encosto para alguns. Mas, como sempre, as mudanças que mais interessam não estão em foco. Questões como as altas taxas de importação de equipamentos audiovisuais e o monopólio na distribuição estão intocáveis. A chance do governo atuar como agente regulador do mercado privado em benefício da pluralidade de conteúdo foi sacrificado na escolha da TV Digital. Isso tudo só impõe novos desafios ao produtor independente, que se vê obrigado a inventar novas formas de comercialização e buscar as co-produção internacionais.
OUTRAS TV PÚBLICAS E/OU EDUCATIVAS:
PBS (EUA)
BBC (Reino Unido)
TF5 (França) (existem ainda o TF2, TF3 e TF4)
TV Cultura (Brasil)
TVE (Brasil)